Não Caia na Grande Cilada! O que é Preciso Saber Antes de Comprar Aço Inoxidável no Brasil 

Não Caia na Grande Cilada! O que é Preciso Saber Antes de Comprar Aço Inoxidável no Brasil 


O mercado nacional de aço inoxidável sofreu com uma enxurrada de aços da linha 200 importados, advindos principalmente do mercado asiático. Aparentemente com preço atrativo em relação ao preço nacional do aço inox 304, muitos prestadores de serviços se viram atraídos e optaram pelo aço importado. Chapas e tubos eram os principais produtos em aço inoxidável, que atraíram parte dos prestadores de serviços de inox no Brasil por serem matérias-primas para revestimentos e corrimãos. Passados algum tempo das primeiras aplicações, vieram as primeiras reclamações e aparições de peças manchadas precocemente, pontos de corrosão inesperados, perda de estética e durabilidade. Juntamente vieram os questionamentos do consumidor final: "Compramos o aço inoxidável da liga 304, que é resistente à corrosão, e agora estamos com estes problemas." Será? 

 A comunidade de manufatura de produtos em aço inox começou a revisar os seus processos para verificar onde estava o problema e chegou à conclusão de que ele estava na matéria-prima, e que estava comprando gato por lebre. Durante anos, um “teste simples”, na hora da aquisição do aço inoxidável, era aplicado: aproximar um ímã do aço inox e, se não houver atração, concluir que se trata de um material de qualidade, como o 304. Por muito tempo, o mito do ímã foi bastante utilizado, mas nunca foi o método mais adequado para verificação e certificação no momento da aquisição do aço inoxidável. Essa é, talvez, uma das maiores armadilhas técnicas que ainda circulam entre profissionais e consumidores. E é exatamente aqui que muitos acabam sendo enganados. Tanto o aço inox 304 quanto o aço inox 200 pertencem à família dos austeníticos. Os aços inoxidáveis austeníticos, em seu estado original, não são magnéticos. Mas o simples fato de um material não “grudar” no ímã não comprova que ele é 304. Esse comportamento não magnético está ligado à estrutura cristalina austenítica, estabilizada por elementos como o níquel (Ni) e, no caso da linha 200, por substituições com manganês (Mn) e nitrogênio (N). Na prática, dois materiais completamente diferentes podem se comportar da mesma forma diante de um ímã, e isso confunde o mercado. A diferença que não aparece no olhar visualmente é quase impossível distinguir, mas a diferença técnica é profunda. 

Para elucidar, veja a tabela de comparação química entre as duas ligas de aço inoxidável:   


O aço inox 304 tem alto teor de níquel, excelente resistência à corrosão, estabilidade química superior e desempenho confiável em ambientes internos e externos moderados. Já o aço inox da linha 200 tem baixo ou quase nenhum níquel (substituído por manganês), menor resistência à corrosão e maior suscetibilidade a manchas, oxidação e degradação precoce, além de performance inferior em ambientes agressivos. Ou seja, um material mais barato, porém tecnicamente inferior. Com custo reduzido, visualmente semelhante e muitas vezes vendido sem a devida especificação, a linha 200 acabou sendo utilizada em aplicações onde o desempenho exigido era de um 304. Não se trata de demonizar a linha 200, ela tem aplicações específicas. O problema é outro: quando ela é vendida para ser utilizada como 304. Identificar e confiar apenas no “teste do ímã” é um erro. Existem soluções técnicas para identificar corretamente o aço que está sendo adquirido. Tecnicamente, a forma mais precisa de identificar a composição de um aço inox é através de um equipamento chamado espectrômetro.   

Esse equipamento realiza uma análise química completa da liga, identificando com exatidão a presença de elementos como: níquel, cromo, manganês, molibdênio, entre outros, porém, trata-se de um equipamento de alto valor agregado, geralmente restrito a laboratórios, grandes indústrias ou centros de controle de qualidade. E é justamente por isso que surge uma lacuna no mercado: como identificar corretamente o material no dia a dia, se é inviável a compra de um espectrômetro? Existe o teste de decapagem química, que permite diferenciar com precisão a linha 304 da linha 200. Esse teste é utilizado para identificar a liga do aço inoxidável diretamente na superfície da peça, de forma rápida e prática. Mas você deve estar perguntando: como funciona este teste? O procedimento consiste na aplicação de um reagente químico (gel decapante) específico sobre a superfície do aço inox. Esse reagente interage com os elementos da liga, principalmente: níquel, cromo e manganês. A partir dessa reação, ocorre uma mudança de coloração na área aplicada.   

E é exatamente essa coloração que indica o tipo de material e a diferença de comportamento das linhas 200 e 304. Como o aço 304 possui maior teor de níquel, a reação química tende a ser mais estável e menos intensa. A coloração geralmente indica presença consistente de níquel e o resultado é a confirmação de uma liga mais resistente à corrosão. Já no aço 200, com baixo teor de níquel (substituído por manganês), a reação apresenta resposta diferente e mais evidente, indicando ausência ou baixa presença de níquel, resultando em uma identificação de uma liga mais sensível à corrosão. Esse tipo de procedimento muda completamente o jogo, trazendo segurança para os produtores e consumidores do aço inox. 

E você? Adota este tipo de procedimento quando recebe do seu fornecedor aço inoxidável 304? 

 É, caro leitor, não caia na grande cilada, nem tudo que reluz é ouro! 

Emmanuel Lacerda – Papo de Inox